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Recusar a celebração da barbárie, confrontar o negacionismo: por uma História ética e compromissada

Updated: Jan 25, 2020






O Grupo de Trabalho Nacional História e Patrimônio Cultural, da ANPUH Brasil, vem somar-se à

manifestação feita pela própria associação e às manifestações de outras entidades e repudia

iniciativas de promoção de comemorações do 31 de março que simultaneamente neguem o

golpe militar de 1964 e o caráter ditatorial do regime que se instalou a partir dele.


Embora, no senso comum, comemorar usualmente indique o ato de promover uma celebração

festiva, não ignoramos, é certo, que a etimologia da palavra tem sentido mais amplo: remete a

trazer à memória, a fazer lembrar. Disso, aliás, se ocupam diuturnamente os profissionais de

História, que também sabem quão complexas se fazem as operações da memória, individual

ou coletivamente realizadas. Por isso, historiadores não apenas buscam fazer lembrar, mas

refletir sobre os sentidos das comemorações construídos na seleção do que se quer lembrar,

como, quando, por quem, para quê; se esforçam ainda em pensar sobre silenciamentos e

apagamentos. Passados presentes e/ou que se objetivam negar marcam o acirramento

memorialístico que estamos vivendo. Nas práticas sociais contemporâneas/cotidianas,

diferentes memórias, de distintos grupos sociais, são postas em confronto e em disputa, e

aqueles que se voltam de modo mais detido para os temas do patrimônio cultural estão

igualmente atentos às formas como as ações de patrimonialização interagem com esses

cenários de conflito. A compreensão dessa complexidade não nos impede, porém, de pautar

nosso trabalho por práticas que contribuam para a construção de uma sociedade fundada no

diálogo entre sujeitos vistos como iguais em direitos, e no respeito à pluralidade de

concepções e experiências – aí incluídas as experiências traumáticas.


Negar retoricamente um passado de autoritarismo e de violência estatal não o elimina, muito

menos impede que experiências similares continuem a proliferar. Cabe confrontar o

negacionismo. Complementarmente, não pode ser tolerada a celebração da barbárie com

base em mistificações que constroem um Outro como não cidadão, encarnação do Mal contra

o cidadão “de bem”, com isso abrindo-se mais e mais brechas para o arbítrio, a tortura, o

extermínio. Juntamo-nos aos demais colegas historiadores, bem como a todos aqueles

empenhados na construção de uma sociedade justa, plural e de bases igualitárias, sensível às

diferenças culturais, e nos posicionamos firmemente em defesa de uma História ética e

compromissada com a democracia.


GT Nacional de História e Patrimônio Cultural (ANPUH Brasil), 30/03/2019

E-mail: gthistoriaepatrimonio@gmail.com