ST 10 - Patrimônios étnico-raciais em disputa: objetos, coleções e memória

Rita de Cássia (UFPB) e Patrícia dos Santos (UFPB)

As quatro décadas compreendidas entre os anos de 1980 e o fim da década de 2010 assistiram a mudanças dramáticas na relação do Estado Brasileiro com as suas minorias étnico raciais. Se no princípio dos anos de 1980 vimos emergir um movimento social fortemente organizado e articulado à sociedade civil de forma mais ampla, pressionando o Estado na formulação de instrumentos legais mais inclusivos, como a Constituição Federal de 1988; ao final do período assistimos ao desmonte de inúmeras políticas públicas decorrentes desse primeiro movimento. No que diz respeito às políticas de Patrimônio Cultural relativas às populações subalternizadas vimos serem suspensos os mecanismos mais inovadores e profícuos da última década - a exemplo dos programas de pontos de memória e de cultura que articularam várias iniciativas em curso Brasil a fora e permitiram a explosão de museus de cunho social. Se por um lado sabemos que o impacto da suspensão e do desmantelamento das políticas públicas para o patrimônio e para a cultura tornam inviável algumas modalidades de ação; por outro, sabemos que os integrantes dessas coletividades mantém-se altivos e ativos na manutenção, atualização, continuidade e transmissão das suas memórias e patrimônios. Eles produzem continuamente o que é digno de ser lembrado, à despeito dos esforços nacionais em silenciá-los e ocultá-los. No sentido oposto ao da invisibilização e buscando tornar conhecidas essa ações, este Simpósio Temático busca reunir trabalhos que apresentem dados sobre iniciativas de memórias e formação de patrimônios realizados por populações étnico-racializadas em tempos pretéritos e contemporâneos. Interessa-nos identificar e mapear iniciativas formais ou não. Esperamos receber trabalhos sobre acervos e coleções públicas e privadas, centros e espaços de memória concretizados ou em curso, processos de documentação de memórias pessoais consolidados ou em fazimento, e todas e quaisquer iniciativas comunitárias que busque organizar e sistematizar de algum modo os patrimônios e memórias dessas coletividades. Acreditamos que o potencial deste simpósio se situa na identificação das memórias e patrimônios subalternos e na constituição de um repertório do que pode vir a ser uma história contada desde uma perspectiva dos de baixo, disputando, portanto, o espaço até então hegemônico das narrativas oficiais. Em suma, o patrimônio como direito à memória e à cidadania.

 

Referências bibliográficas:

ABREU, R. M. R. M.; LIMA FILHO, M. F. (Org.); ATHIAS, R. (Org.) . Museus e Atores Sociais: Perspectivas Antropológicas. Recife: Editora da UFPE/ABA, Publicações 2016. Recife: Editora da UFPE, 2016.

CHUVA, Márcia. Os Arquitetos da Memória. Sociogênese das práticas de preservação do patrimônio cultural no Brasil (anos 1930-1940). Rio de Janeiro: UFRJ, 2009.

GNECCO, Cristóbal; ZAMBRANO, Marta (orgs.). Memorias hegemónicas, memorias disidentes: el pasado como política de la historia. Bogotá: Ministerio de Cultura, Universidad del Cauca, Instituto Colombiano de Antropología, 2000, p. 171-194.

OLIVEIRA, João Pacheco de. O Nascimento do Brasil e outros ensaios. Pacificação, regime tutelar e formação de alteridades. Rio de Janeiro: Contracapa, 2016.